28 janeiro 2006

Descobrir o mundo no centro de Embu

Mais um dia de produção radiofônica. E que tal inovarmos? O que acham de conversarmos com pessoas diferentes, conhecermos o trabalho e a história delas? Enquanto alguns deles ainda acordavam, ouvi um “oba” baixinho, feminino, vindo do fundo da sala.

Com todos os roteiros em mãos, descemos para o centrinho de Embu das Artes. “Posso dar a mão? Eu fico nervosa de andar sozinha. Minha perna treme”, me pergunta Eliana, uma cursista mais que especial. “Claro. Eu tava mesmo querendo dar a mão, mas estava com vergonha de te pedir” respondo, enquanto ela ri baixinho. E assim, de mãos dadas, caminhamos ao nosso destino. O momento era especial – podíamos compartilhar sonhos e descobertas. E, de mãos dadas, comecei a conhecer o mundo de alguns deles.

- Você vai à escola, Eliana?
- Vou sim. Na escola especial. De tarde. Mas eu não entendo muita coisa.
- E você tem um sonho?
- Ahhhh... eu sei só um nome. Eu queria mesmo é saber o nome todo. E fazer continha de mais. Mas a professora disse que minha letra é feia. E eu fico nervosa.
- Se tiver confiança em mim eu posso te ensinar.
- Amanhã. Ou outro dia. É que minha mão fica molhada.

A outra mão vazia, logo encontrou um companheiro: “Eu sei fazer continha de mais. Olha só: dois mais dois dá quatro”, me ensinou o Eliton, outro ser mais que especial. “Eu sei contar até oito. E eu posso ensinar você, Eliana”.

E como o tempo passou voando... logo estávamos todos, em frente ao museu. Roteiros, gravadores, cada grupo responsável por uma rua e... foi dada a largada! Acompanhei de longe, fotografando e testemunhando os gaguejos, a vergonha, o branco na hora de fazer a pergunta ao policial militar, a frustração com as respostas monossilábicas.

Hora de voltarmos. E encontrei a autora do “oba” sentada na praça, sozinha, querendo compartilhar o vivido:

- Eu nunca tinha vindo aqui. E nunca, na minha vida inteira, entrei num museu. Foi a primeira vez.
- Mas Elisângela, deixaram você entrar no museu?
- Eu pedi licença e por favor. A moça deixou. Entrei em três museus. (apontando as galerias)
- E como foi?
- Nossa, eu vi as coisas mais lindas do mundo. Cada quadro, cada coisa. Tudo tão colorido. Eu só tinha visto no livro. Eu queria ficar ali pra sempre.
- E o que você sentiu?
- Eu queria voar. E lembrei da minha mãe. Eu queria que ela também estivesse aqui, vendo tudo isso. Ela ia enlouquecer.

Olhos mareados. Hora de voltar. Deixamos o centrinho de Embu com a certeza de que um novo mundo havia sido revelado. Dois dias depois, na hora do intervalo, ouço baixinho: “Eu confio em você. Eu quero aprender o nome todo”. E logo estávamos lado a lado, mãos dadas, escrevendo juntas “o nome todo”. Depois das primeiras tentativas, a mão já não treme mais e o suor diminuiu. E vamos descobrindo as primeiras letras. “Pra eu voltar pra escola e mostrar pra professora que minha letra é linda sim. E que eu sei sozinha as continhas de mais”.

Vanessa Pipinis

4 Comments:

Blogger Zé......!!! said...

Vã, maravilhosa essa crônica. Espero ler muitas!
Não sei se é da turma da manhã, mas parece ser um pessoal muito especial.
É isso aí, adorei mesmo um beijão!

31 janeiro, 2006 23:31  
Blogger PGF said...

Lindo Vanessa tua crônica dá até p/ viajar nu ki vc escreveu, pois vc se preocupou em enriquecer nos detalhes. Muitu bonita mesmu...
BJÃO...LIA

Caso vc naum mi conheça sou a Lia da turma N4 do Geração Cidadã, sou aluna do Batata... Visite nossu Blog...

01 fevereiro, 2006 00:20  
Blogger Ismar said...

Vanessa,

É muito bom estar vivo e atento, para ler o que você escreveu. Sua crônica é a tradução do sentimento mais profundo de ser um educomunicador. Ao segurar a mão da menina e dizer a ela que você estava alí, caqminhando com ela, você disse o essencial. Essencial para ela, essencial para o projeto que estamos construindo, todos, juntos. Fiquei profundamente comovido e compensado.

Ismar

04 fevereiro, 2006 15:52  
Blogger Teia said...

Vanessa,
Acho que fomos mordidos pelo mesmo bichinho, o do amor fraternal pelas pessoas mais do que especiais. São situações como a que você descreveu que me mantém firme para estar aqui a cada novo dia.
Só alguém especial saberia lidar com alunos especiais e você, mesmo com todas as dificuldades, tem feito um lindo trabalho.
Parabéns!!!

Fábio Camilo (Lab 03 - manhã)

13 fevereiro, 2006 14:21  

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